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O B J E C T I V A M E N T E

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O B J E C T I V A M E N T E

«dignidade da História»

Outubro 19, 2019

É tal a excelência e dignidade da História que, para mostrar a grandeza dela, lhe chamaram os antigos Alma da virtude, dando nesta breve semelhança a entender que, assim como a fábrica e composição de um corpo humano se não perpetua sem alma, assim as façanhas e obras valerosas se entregam ao sepulcro do esquecimento, faltando a História, que como alma sua as possa eternizar. Outros, reduzindo a comparação a cousa mais ordinária, a chamaram Teatro da Vida humana; porque, do modo que, nos teatros públicos, se representam sucessos de amores e armas e outras mil variedades que para se efectuarem na verdade foram tão dificultosas, como postos naquela invenção ficam alegres e desenfadiças, - assim no Teatro da História se nos mostram em modo aprazível os casos e sucessos árduos que os antigos acabaram com infinito perigo de suas vidas.(*)

 

Frei Bernardo de Brito, Prólogo de Monarquia Lusitana.
Apud António Quadros, A Teoria da História em Portugal – I. O Conceito de História – 1. Essência e finalidade da história.
Ed. Espiral, Biblioteca de Cultura Portuguesa, Série Filosofia. S/d [Lisboa 1967?], pp.28-29.

 

 

(*)É de notar a contradição entre o honesto conceito de história expresso por Frei Bernardo de Brito e a falta de probidade histórica que desde Alexandre Herculano lhe é imputada. A contradição é quanto a nós apenas aparente, porque a divergência de conceitos situa-se ao nível da teoria do conhecimento histórico. Teófilo Braga foi o primeiro a compreendê-lo, corrigindo até certo ponto o juízo excessivamente negativo de Herculano.

 

António Quadros, anotação de Alma de virtude, teatro da vida humana. Ibidem, p.29.

«autonomia da cultura»

Outubro 19, 2019

«Deve haver quem nos combata para nos estimular; deve haver quem nos traia, nos odeie, nos aplauda e nos siga. Só a existência tem esses sinais de vida.»

 

Álvaro Ribeiro, intervenção (28-Mar-57) a propósito da edição de A Razão Animada.
Apud Azinhal Abelho, Meridiano do Chiado.
57 – Folha independente de cultura. Ano I, N.º 1, pp.8,15. Cascais, Maio 1957.

SÍNTESE • segunda

Outubro 17, 2019

 

Ninguém jamais pensou e pensará por mim.

 

Obras de José Marinho, Estudos sobre o Pensamento Português Contemporâneo.
Ed.
[póstuma] Biblioteca Nacional. Secretaria de Estado da Cultura, Ministério da Cultura e Coordenação Científica. Lisboa, 1981, p.16.

SABER SALVAGUARDAR

Outubro 17, 2019

Alguns, com zelo de amigos, me aconselharam compusesse esta obra em língua latina, dizendo que, para minha reputação e para se divulgar por mais partes, convinha ser nesta forma; e quase me tiveram abalado para o fazer, se não considerara ser um género de imprudência, à conta de ganhar fama com estrangeiros, perdê-la com os naturais e antepor o proveito próprio ao gosto comum do povo, que, não sabendo a língua latina, havia de permanecer na ignorância que teve de suas coisas até o tempo de agora. Outros, considerando a criação e uso que tinha da língua castelhana, me diziam a compusesse nela, pois além de se entender em todos os reinos de Espanha e muitos fora dela, me livrava da grosseria e ruim método de historiar da portuguesa. Mas, como esta opinião era tão mal fundada, que nem sombra tinha de boa, nunca fiz rosto a quem ma persuadia, vendo que a primeira razão me arguia de interesseiro em pretender gasto da impressão, e a segunda de indigno do nome português, em ter tão pouco conhecimento da língua própria, que a julgasse por inferior à castelhana, sendo tanto pelo contrário, que não há língua em Europa, tomada nos termos que hoje vemos, mais digna de se estimar para História que a portuguesa, pois ela, entre as mais, é a que em menos palavras descobre mores conceitos e a que com menos rodeios e mais graves termos dá no ponto da verdade. E se, como ela de si é grave e natural para narração verdadeira, a engrandeceram seus naturais com impressões e livros compostos nela [...]; mas, [...] tendo dentro de si filhos tão ingratos, que a modo de venenosas víboras lhe rasgam a reputação e crédito devido, não é muito estar em tal opinião até o tempo de agora. E, se alguma coisa me lastima, é ver que a pouca notícia que dela tenho me fará levar o estilo da História menos lustroso do que pudera ir [...].

 

Frei Bernardo de Brito, Prólogo de Monarquia Lusitana [1597?].
Apud António Quadros, A Teoria da História em Portugal – I. O Conceito de História –
– 2. Ética e metodologia do historiador
.
Ed. Espiral, Biblioteca de Cultura Portuguesa, Série Filosofia. S/d [Lisboa 1967?], pp.74-75.

 

 

... no âmbito da cultura portuguesa, é sem dúvida Frei Bernardo de Brito, o primeiro que supera o parcelarismo monográfico e apologético da crónica e cuja historiografia singular merece uma atenção que os sarcasmos de Herculano, automàticamente repetidos sem crítica por gerações e gerações de historiadores, têm dificultado.

[...]

Muito embora a Monarquia Lusitana seja naturalmente lusocêntrica, [...] é preciso não esquecer a intenção psicológica de Frei Bernardo, patriota ardente que, em plena ocupação castelhana, quis chamar os seus compatriotas à responsabilidade, mostrando-lhes o dever e a missão universais que lhes incumbia [...].

[...]

Mas o principal valor de Frei Bernardo é a sua contribuição para a história filosófica, não só pela transcendência da história particular, como pela firme assunção das causas finais.

 

António Quadros, Alguns Comentários Finais ao Conceito de História –
– Frei Bernardo de Brito, o primeiro historiador português
. Ibidem, pp.152-154.

«impossível transparência»

Outubro 17, 2019

 

E contudo sofreste. De beleza
sofre-se às vezes mais que de tristeza,
sofre-se o vento, a bruma, a noite, o dia,
a muralha do tempo e do Impossível,
sofre-se o que se diz e o indizível.
De que morre o Poeta? De Poesia.

 

Fernanda de Castro, excerto de Antero.
Alma, Sonho, Poesia – Selecção de Poemas (1952-1989).
Fundação António Quadros Edições, Lisboa 2010, p. 27.

POR DENTRO DO TEMPO

Outubro 17, 2019

... o que nós, portugueses, encontrámos no mar, o que nós, portugueses procuramos ainda no mar, nós, filhos dos descobridores, nós pescadores do alto, nós náufragos do nosso destino traído: mais do que um símbolo, mais do que um mito, o lugar histórico onde cumprimos a vontade de Deus [...].

 

António Quadros, Histórias do Tempo de Deus – O Mar.
Livraria Morais Editora, Lisboa, 1965, p.50.

«lei da existência»

Outubro 10, 2019

Às funções de ordem espiritual pertencem as diferentes formas de conhecimento que o homem possue [...]. Há espírito que difìcilmente se liberta da consciência, como há espírito que difìcilmente se liberta da vida, como há espírito que difìcilmente se liberta da matéria. [...] A sua maior ou menor dependência de cada uma ou de várias das outras regiões da realidade é perfeitamente visível na conformação de ordem superior e sintética que realiza ou dela é a expressão – a personalidade. [...] A personalidade, como qualquer outra das formas existenciais anteriormente citadas, – embora em diferente grau, – existe porque outras também existem. A lei da existência é relação de plurais, isto é, se qualquer coisa existe deve pelo menos uma outra também existir, pois, doutro modo, não seria o seu conhecimento possível. Êste é sempre relação unidade-diversidade e a diversidade só pode justificar-se ontològicamente. O mesmo se poderá dizer da vida, porque não há vida sem coexistência. [...] É uma questão difícil para certas correntes da filosofia concluir da consciência pessoal para a existência de outras consciências. E, de-facto, a consciência é intencionalmente dirigida para o mundo que está fora de si. Esta intencionalidade não exige a existência de outras consciências, mas de alguma coisa que não seja consciência, isto é, alguma coisa que lhe seja radical e estruturalmente diferente. Existindo isto, a consciência tem vida própria. Partindo da consciência (limitando-nos ao cogito) e não estabelecendo a dependência ontológica dos diferentes sectores da realidade com ela, tornar-se-á insolúvel esta dificuldade e o solipsismo inevitável.

 

Delfim Santos, Da Filosofia.
Porto, 1939, pp.79-80.

TARDES SECULARES

Outubro 10, 2019

O sol cai já por detrás da serra; – nos campos todos os verdes são de uma meia tinta fresca e suave. Para além estende-se a larga superfície quieta do mar cortado de filões espelhados como filões de prata, e perdendo-se ao longe no horizonte sobre que rolam nuvens cor-de-rosa. Na eira, o trigo está quase limpo. [...]

Eu, lentamente, seguia com os olhos um navio adormecido sobre o mar, as velas brancas panejando na quietação da tarde.

 

Florêncio Terra, A Debulha.
Colectânea Contos Escolhidos de Autores Portugueses. Selecção, Júlio Martins.
Didáctica Editora, Lisboa, s/d, p.120-121.

 

 

O crepúsculo descia, como um grande véu de ouro e tristezas. O vale adormecia. Os chocalhos, num acompanhamento de elegia, carpiam naquela hora mística a inenarrável saudade da terra. Sentia-se uma ânsia da grande alma do mundo por uma beleza sempre escondida. [...] Que são os nossos sonhos senão isso? E tudo voltou a ser doce, sem nuvens que não fossem curtos zelos de derriço, e o trabalho leve e passageiro, como é leve e passageira a juventude.

 

Júlio Brandão, Os Lobos.
Ibidem, p.133.

 

 

A tarde vai no fim. O sol mergulhou por detrás da serra, e a luz que cobre as várzeas e as chãs, que ilumina os topos dos salgueiros e prateia ligeiramente o rio, é branda, igual, enchendo o espaço de uma fina pulverização de âmbar, suavizando os contornos, esmaecendo as cores. Apenas no horizonte, como cravada nos topos dos montes longínquos, uma cinta de oiro fino engasta a cúpula azulada do céu erma de nuvens, onde o crescente da lua, ao alto, no zénite, lembra a válvula semi-aberta para o espaço iluminado dum enorme balão azul que subisse os mundos, com a terra por barca.

 

Marcelino Mesquita, A Desforra do Maioral.
Ibidem, p.107.

 

 

Naquela luz indecisa de crepúsculo que mansamente se ia acentuando, os montes do sul tomavam um torvo aspecto de sombras gigantescas, imobilizando num fundo em que se iam apagando ao de leve todos os cambiantes de luz. Os pormenores da paisagem perdiam-se naquela indecisão vaga da noite que vinha descendo e uma espécie de silêncio confrangedor dominava a natureza toda, recolhida num como espasmo amedrontador e sinistro que dentro de nós evoca a essa hora não sei que vagos receios ou medos inconscientes que fazem com que na imaginação as coisas criem vulto e no mundo exterior obrigam a retina a exagerar as formas às coisas...

Muda de gorgeios, atravessando o espaço em voos muito rápidos, a passarada demandava os ninhos onde se acoitasse do frio que acordava. Caíam já pesadas sobre os vales as sombras das montanhas e um fumozito subtilmente azulado nadava à flor das coisas, velando-as para o tranquilo sono em que iam adormecer.

 

Trindade Coelho, Abyssus Abyssum.
Ibidem, p.96.

 

 

Está uma tarde quente. A montanha à minha direita, desdobrada na sua aridez, o sol requeima-a de maldição. À esquerda, o vale. E soerguidas um pouco, na cor violácea da distância, na encosta de outros montes, cintilando breves em brancura, indistintos sinais de aldeias imaginárias como ecos de um grito. Vem pela montanha esse grito, vem das origens do mundo. Ouço-o palidamente. De longe em longe, brancas manchas de aldeias. São as pegadas do homem.

 

Vergílio Ferreira, Para Sempre, romance em preparação.
CULTURA PORTUGUESA, Revista bimestral da Secretaria de Estado da Cultura.
N.º2, Janeiro-Fevereiro 1982, Lisboa, p.63.

Legados

Arquivo Pessoa

Casa Museu José Régio

Espaço Miguel Torga

Fundação António Quadros

MODERN!SMO Arquivo Virtual da Geração de Orpheu

Rómulo de Carvalho – António Gedeão



Recursos

Academia Nacional de Belas-Artes

Academia Portuguesa da História

Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea

Associação dos Arqueólogos Portugueses

Bibliografia do Conto Português (séc. XIX- XX)

Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian

CAAA, Centro para os Assuntos da Arte e Arquitectura

Escola Artística de Música do Conservatório Nacional

Fundação Casa da Música

Fundação Lusíada

Fundação Oriente

Glosas Música Clássica dos Países de Língua Portuguesa

mpmp movimento patrimonial pela música portuguesa

Projecto Adamastor – Biblioteca digital

Seminário Livre de História das Ideias

Sociedade de Geografia de Lisboa

Sociedade Portuguesa de Autores

Sociedade Portuguesa de Filosofia

Viúva Lamego



Registos



Paralelos



Directos

Referências

Plurais

Afonso Botelho (1919-1998?)

Agostinho da Silva (1906-1994)

Almada Negreiros (1893-1970)

Álvaro Ribeiro (1905-1981)

António Quadros (1923-1993)

Bernardo de Brito, Fr. Cist. (1569-1617)

Carlos Queiroz (1907-1949)

Delfim Santos (1907-1966)

Fernanda de Castro (1900-1994)

Fernando Pessoa (1888-1935)

Fernando Ruy dos Santos Gilot (?)

José A. Ferreira (n.1927)

José Marinho (1904-1975)

José Régio (1901-1969)

Leonardo Coimbra (1883-1936)

Lima de Freitas (1927-1998)

Miguel Torga (1907-1995)

Ramalho Ortigão (1836-1915)

Vergílio Ferreira (1916-1996)


Singulares

Aarão de Lacerda (1890-1947)

Agustina Bessa Luís (1922-2019)

Alexandre Fradique Morujão (1922-2009)

António Braz Teixeira (n.1936)

Augusto Saraiva (?)

Campos Monteiro (1876-1933)

Carlos Botelho (1899-1982)

Carlos Paredes (1925-2004)

David Mourão-Ferreira (1927-1996)

Fernando Lopes Graça (1906-1994)

Florêncio Terra (1858-1941)

Geraldo Bessa Victor (1917-1985)

Graça Almeida Rodrigues (?)

João Gaspar Simões (1903-1987)

J. Coelho Pacheco (1894-1951)

Joel Serrão (1919-2008)

Joly Braga Santos (1924-1988)

Jorge de Sena (1919-1978)

José-Augusto França (n.1922)

Júlio [dos Reis Pereira] (1902-1983)

Júlio Brandão (1870-1947)

Júlio Pereira (n. 1953)

Lídia Jorge (n.1946)

Manoel de Oliveira (1908-2015)

Manuel Breda Simões (1922-2009)

Marcelino Mesquita (1856-1919)

Moniz Barreto (1863-1899)

Nadir Afonso (1920-2013)

Nuno Gonçalves (Século XV)

Orlando Vitorino (1922-2003)

Natércia Freire (1919-2004)

Rómulo de Carvalho (1906-1997)

Sant'Anna Dionísio (1902-1991)

Soeiro Pereira Gomes (1910-1949)

Theophilo Braga (1843-1924)

Trindade Coelho (1861-1908)

Vianna da Motta (1868-1948)

Vitorino Nemésio (1901-1978)



Quotas

Alexis Carrel (1873-1944)

Arnold Toynbee (1889-1975)

Elaine Sanceau (1896-1978)

Gilbert Sinoué (n.1947)

Henri Focillon (1881-1943)

Manoelle Amé-Leroy (?)

Miguel de Unamuno (1864-1936)

Tadao Takamizawa (n.1938 ?)

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